No mês de junho 2014,   concedi um entrevista, na qual falei sobre a situação do varejo brasileiro, notadamente do varejo de moda, o segmento que mais vem sofrendo no momento atual.  Hoje, dia 9 de julho de 2014, li um artigo escrito por Marcos Hirai marcos.hirai@bgeh.com.br , sócio-diretor da BG&H Retail Real Estate, sobre o varejo Americano, que tem muita semelhança com a minha entrevista concedida para a Revista Empresário Lojista.  Por ser um assunto que interessa a todos os envolvidos direta ou indiretamente, com o varejo, resolvi publicar os dois artigo:

 

Entrevista para a Revista Empresário Lojista ( junho 2014)

 

O professor Juedir Teixeira conhece muito bem o varejo braseiro e  notadamente o varejo na cidade do Rio de Janeiro, em face das suas múltiplas funções que exerce nesse segmento de mercado, como lojista, professor e coordenador do Curso Superior de Tecnologia em Gestão de varejo e MBA do IVAR e como consultor em gestão varejo. Como o professor tem alunos de praticamente todas as grandes e  médias empresas varejistas e presta serviços de consultoria a outras tantas,  detém muitas informações sobre o mercado, nesta entrevista, ele analisa o comportamento do varejo para a Revista Empresário Lojista

 

Revista Empresário Lojista. Quais são as perspectivas do varejo para o segunda semestre de 2014.

Resposta: As vendas no varejo que vinham crescendo acima da PIB nos últimos anos, neste ano reduziu o ritmo, e a previsão para o segundo semestre é continuar essa tendência, em função da insegurança e incerteza da população com as eleições de outubro. O varejo de serviço continua em plena ascensão, inclusive com aumento de preços, o que vem pressionando a inflação para fora meta do governo,  razão do aumento de juros da taxa Selic neste ano. Por outro lado, o varejo de produtos vem caindo muito nos últimos anos, principalmente os produtos destinados ao público classe A e B do segmento de moda.

Revista Empresário Lojista. Pela sua análise os Lojistas de moda que atendem as classes A e B  tem enfrentado mais dificuldades?

Resposta: Sem sobra de dúvida os lojistas que atendem esse segmento de mercado tem sido os mais afetados, pelos seguintes motivos:

  • O aumento do custo de locação que vem ocorrendo nos últimos, nos shoppings posicionados para atender as classes A e B , em função do Degrau (percentual de aumento acima da IGP-M), incidente nos contratos de locação e, em consequência, os pontos de ruas das áreas nobre da cidade, tornando esses custos totalmente fora da realidade;
  • A abertura de diversos novos centros de compra nos últimos anos, dentre os quais podemos destacar: Shopping Village Mall,  Shopping Metropolitano, Shopping Américas, Shopping ParkShopping Campo Grande e outros de menor porte, além da expansão dos shoppings existentes;
  • O crescimento de venda no E-commerce, dentro e fora do país, principalmente o segmento de calçados , esporte e moda de um modo geral;
  • A aumento do número de pessoas das classes A, B e C,  que estão tendo a oportunidade de viajar para o exterior e experimentar os preços dos produtos de moda, que são extremamente mais barato do que no Brasil. Essas pessoas passaram a perceber o quanto os preços no Brasil são caros e estão fazendo as suas compras no exterior. Prova disso é que os consumidores  brasileiros são os grandes compradores no varejo americano, com as lojas sempre lotadas de brasileiros e os vendedores tendo que falar o nosso idioma, o português,  como forma de sobrevivência no varejo americano. Para se ter uma idéia, as compras de brasileiros no exterior pularam de $2,1 bilhões de dólares em 2013, para mais de $25 bilhões de dólares em 2013.
  • Aumento da oferta e facilidade de compra de outros produtos, como carros, apartamentos, eletro eletrônicos sempre com lançamento de novos modelos no mercado, o que incentiva a compra desses produtos, reduzindo a compra de produtos do segmento de moda.

Revista Empresário Lojista:  Dentro desse cenário ou dessa realidade mencionada pelo professor, o que o lojista desse segmento deve fazer para manter a sustentabilidade do negócio?

Resposta: O varejo brasileiro mudou muito nos últimos anos, pelos fatos  por mim já mencionados, bem como pela entrada de grandes operações varejistas globais no mercado brasileiro, o que  exige do empresário local, mudanças profundas na gestão do seu negócio, dentre as quais destacamos as seguintes:

  • Ser muito mais criterioso no processo de expansão do negócio, notadamente na  abertura de novas lojas próprias, que exige estudos muito mais profundo sobre a viabilidade do negócio atual e as ameaças futuras, num mercado em constante evolução como o brasileiro;
  • Conhecer profundamente  os seus clientes para poder entender para atender as suas necessidades e expectativas, para oferecer o produto certo e com alto padrão de atendimento e serviços;
  •  Melhorar a gestão de uma forma geral visando melhorar a competitividade do negócio, com ganho de produtividade nas diversas áreas funcionais da empresa;
  • Focar num determinado público alvo para poder reduzir a variedade de produto e aumentar a profundidade do estoque, para poder ganhar no giro, tendo em vista a grande dificuldade de recomposição de margem, no mercado de custos crescentes e venda decrescente;
  • Investir em qualificação de pessoal e tecnologia da informação, dois fatores fundamentais para a melhoria da produtividade no mundo atual;
  • Por último, não ouvir nenhuma  palestra de nem ler artigos de economistas e evitar o máximo possível ler e ouvir os noticiários diários, que só enfatiza o  fracasso e se o empresário der atenção, seu negócio pode quebrar antes da hora.

VAREJO AMERICANO – LOJAS FECHANDO

Desde o início o ano, uma série de anúncios sobre o fechamento de lojas no varejo americano têm marcado 2014 como um dos mais difíceis períodos dos últimos anos.

Redes como Sbarro, Quiznos e Family Dollar anunciaram concordata e fecharam quase todas suas lojas e redes tradicionais como Sears, JC Penney, Macy´s, Radio Shack, Blackberry, Barnes & Noble, Best Buy, Toys “R” Us e Staples anunciaram redução de suas operações.

Mas é no varejo de moda e vestuário que as piores notícias foram anunciadas. Uma profusão de redes tem fechado suas lojas, de forma sem precedentes na história do varejo americano.

A Abercrombie & Fitch Co. anunciou o fechamento de 70 lojas da sua grife de moda surf Hollister e de todas as lojas de roupas íntimas Gilly Hicks até o final do ano. Outra rede americana de vestuário feminino a Coldwater Creek anunciou o fechamento de todas as suas 365 lojas, demitindo 6.000 funcionários.

Outra rede famosa entre os adolescentes brasileiros a Aeropostale anunciou o encerramento de outras 125 lojas. A grife moderninha Juicy Couture foi radical e está fechando todas as suas 70 lojas nos Estados Unidos. Por fim a rede de moda feminina de descontos Dots encerrou as operações de todas as suas 360 lojas.

Numa economia dinâmica como a americana, onde a concorrência é avassaladora agravada por um ambiente econômico que ainda está se recuperando de forma lenta depois de uma grave crise.

As empresas enfraquecidas, também não conseguem mais absorver os crescentes custos imobiliários e de pessoal que ocupam cada vez mais a planilha de custos dos varejistas.

Há vários fatores que estão por trás dessas tendências:

A ascensão do e-commerce. Em 2013, as vendas on-line cresceram 16%, enquanto as vendas de vestuário do varejo físico cresceram apenas 0,8%. Para a maioria das redes, as vendas on-line já representam cerca de 25% do seu total.

Deflação dos preços. Num universo pressionado por preços cada vez mais baixos, alavancado por uma rede de fornecedores globais, geralmente localizados em países pobres da Ásia, favorecem os preços mais baixos. Bom para o cliente, ruim para o varejista que deve vender mais e mais, apenas para ficar no mesmo.

Novos modelos de negócios. Varejistas de fast fashion (H&M, Forever 21, Zara) estão mudando a equação, concentrando na moda de alto giro, constantemente trazendo produtos novos e atualizados nas lojas físicas e online.

Os varejistas que não se adequam a este novo modelo de negócios estão com dificuldades para manterem-se.

Não obstante, aqui no Brasil o cenário não é muito diferente. Além de todas estas situações apontadas no varejo americano, aqui os lojistas ainda temos de lidar com inflação alta, taxa de juros, carga tributária, encargos trabalhistas, problemas logísticos, entre outros.

Claro, temos realidades distintas, mas vale como alerta aos varejistas brasileiros para ficarem de olhos bem abertos com o que está ocorrendo lá fora, pois é uma questão de tempo que as dificuldades de lá comecem também a fazer parte da realidade de cá.

 

por Marcos Hirai (marcos.hirai@bgeh.com.br), sócio-diretor da BG&H Retail Real Estate